26.10.17

- Vamos falar sobre morte.
- Não…
- Vais dizer-me que preferes falar sobre amor? Hum?
- Está bem, falamos sobre morte. (Suspiro)
- A morte é a maior mudança que vais sofrer na vida.
- Ah-ah-ah, jura?
- A morte começa pelos pés e termina no coração.
- No coração? Porque estás a falar de amor? 
- A morte às vezes dá ânimo.
- Por favor, pára com essas…
- A morte é uma boa terapeuta.
- …
- A morte faz cafuné, dá colo, abraça.
- Raios, pára de falar sobre amor! Chega!
- A morte é o maior presente que o teu corpo te pode dar.
- Esse júbilo todo nas palavras já me está a enjoar.
- Só estou a fazer o meu trabalho, ok?
- Não preciso que me estejas a convencer, já decidi que ia comprar.
- Nunca é demais repetir as características do serviço. 

2.10.17

No bolso junto às coronárias do casaco, ela guardava o cartão postal que alguém tinha recebido em 1918. Achava que isso era uma forma de sentir as palavras bonitas de caligrafia enlaçada, que mesmo não sendo remetidas a ela, por herança lhe pertenciam. O postal, de amarelo-torrado-crónico, pontas ligeiramente espigadas, ainda mantinha o som de batimento cardíaco quando se flectia o cartão. E era exactamente por isso que fazia parte das horas que confeccionavam o dia dela. Ele era ilustrado. Ela era assistólica. Ele era colocado todos os dias no bolso. Ela era colocada todos os dias no limbo.